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Concurso Casa da Sustentabilidade no Parque da Lagoa do Taquaral, Campinas – SP

Contexto

Enquanto o sol é amenizado nas áreas próximas ao terreno reservado ao projeto, por árvores de grande e médio porte, a clareira existente propicia visuais interessantes do Parque Portugal. Tais visuais, não são apenas de conexão com a natureza circundante, mas também de conexão com arquiteturas estrategicamente dispostas no Complexo Esportivo: a guarita da entrada 5, a Estação Nestor Raimundo (ponto de parada transitório do bondinho que circunda o parque), o Planetário, a quadra de patinação, o edifício da Guarda Municipal e a Estação Telemétrica, sendo esses dois últimos os de maior influência na área. Além, portanto, da proximidade da área do terreno, localizado na borda do parque, com a cidade e suas demais influências urbanas.
Enquanto o edifício da guarda municipal situa-se a Norte do terreno (ou seja, de frente para a aresta de maior incidência solar), o mesmo não pode ser dito da Estação Telemétrica da CETESB. O pequeno edifício ocupa posição de destaque na topografia, evidenciado por taludes naturais que terminam na linha férrea do bondinho. Por esse motivo, ficou claro no processo de projeto que a transposição da Estação Telemétrica para outro local é importante para assegurar ao novo edifício da Casa da Sustentabilidade papel de protagonismo em meio à clareira e às arquiteturas circundantes. Sem dúvidas, não será preciso procurar longe para encontrar, em meio ao entorno arborizado por árvores de médio porte, um local adequado à estação.
Aproveitando a topografia suave da região central da área reservada, quase uma pequena planície, somado à facilidade de acesso que uma via de pedestres já consolidada, a oeste, poderia contemplar, a implantação do novo edifício buscou facilitar a execução, manutenção e usabilidade rotineira de seus usuários (funcionários e visitantes), evitando grandes movimentações de terra ou interferências na própria estrutura viária do parque.
Para que as decisões referentes ao projeto se façam claras, julgamos necessário esclarecer a maneira como o programa de necessidades e alguns conceitos foram imaginados.

Programa de necessidades

O edital do concurso deixa claro o programa de necessidades e sua divisão em quatro áreas distintas, no entanto interligadas direta ou indiretamente:

1- Uso Restrito: área fechada e interna do edifício que comporta o programa referente às atividades administrativas da Casa da Sustentabilidade. Tal área pode ser acessada apenas por funcionários. Entendemos que a facilidade e controle rígido de acesso se daria pela criação de duas possíveis entradas, ou dois possíveis caminhos (um de acesso direto e outro de acesso progressivo restritivo aos funcionários, ou seja, área administrativa);

2- Uso Controlado: a área de acesso controlado diz respeito à parcela do programa de necessidades destinado às reuniões, encontros, palestras, aulas, exposições, ou seja, de atividades de uso próprio ou de terceiros no edifício. Entendemos ser importante que tal área tenha uma natureza dupla no projeto, de tal sorte que enquanto compreende salas capazes de comportar um número generoso de pessoas, o nível de gradação com a paisagem do parque e seu entorno, deveria ser controlado (mais fechado em salas de reunião e mais aberto em foyer e área de exposições, por exemplo);

3 – Uso Livre: a varanda da Casa da Sustentabilidade, é a extensão da cobertura do edifício, capaz de comportar e deixar inventar usos e exposições. O edital do concurso deixa clara a importância que tal área deve ter no projeto, tanto em questão de funcionalidade e socialização dos usuários no espaço projetado quanto de conceito.

4 – Uso Externo: o entorno imediato, a parcela restante da área de projeto. A exigência do edital em firmar uma área limite construída de 1500 m2, abre o caminho para a possibilidade de um espaço circundante de grande proporção e suas conexões com os demais caminhos do parque e da sua relação com a cidade. Dada a comunicação com o entorno, tanto das paisagens naturais como construídas, a intervenção no espaço restante toma contornos importantes. O cuidado ao projetar um edifício que convida os usuários do parque a visitar e permanecer no edifício novo, de forma a não isolar do restante do parque e criar conexões com os demais usos que o parque disponibiliza foi de grande importância para nossa proposta.

Sustentabilidade

Em que medida o tema da sustentabilidade poderia ser abordado no projeto, de maneira à própria materialidade e presença da arquitetura cristalizar o conceito?
O tema do “edifício professor”, ou seja, da arquitetura cuja própria fisicalidade é um manifesto capaz de ser lido, entendido e causar reflexões, é um tema recorrente na arquitetura, principalmente nos projetos das gerações modernistas no Brasil. Princípios construtivos e estruturais, instalações aparentes e a ausência de revestimentos são características importantes da arquitetura desse período, ainda celebradas e colocadas em evidência em nossa atual geração. A arquitetura contemporânea no Brasil se faz relevante frente ao desafio da construção da Casa da Sustentabilidade, uma vez que temas como ventilação natural, isolamento térmico, gradação da luz natural, exposição de técnicas construtivas, aproveitamento de água de chuva, etc, podem ser explorados utilizando de um repertório de soluções que não apenas são eficientes em resolver essas questões, mas também de serem expostas e contextualizadas nos dias de hoje, com novos materiais e técnicas.
A própria construção de uma arquitetura parece ser paradigmática ao tema, uma vez que é impossível que uma construção seja 100% sustentável, ou seja, capaz de repor ao meio ambiente toda a energia e esgotamento de recursos utilizados na confecção do ambiente construído. A confusão e a leviandade com que o tema é exposto na mídia na maioria das vezes, leva a soluções errôneas e a construção de um imaginário fortuito.
Partindo-se dessa ideia, de que não existe arquitetura 100% sustentável, o objetivo do edifício da Casa da Sustentabilidade deve ser o de minimizar ao máximo o impacto de sua construção no meio ambiente. Isso significa que até uma escolha importante, como da localização do edifício na área, ganha ainda maior importância para que esse objetivo seja atendido.

Implantação

Como dito na contextualização do projeto, pensar na facilidade de acesso ao edifício é o primeiro passo para garantir o cumprimento do programa de necessidades e sua gradação espacial. Uma vez que a aresta do terreno voltado para a Guarda Municipal possuí a maior incidência solar, e uma via de pedestres a oeste oferece uma possibilidade de acesso boa à área, optamos por locar o novo edifício próximo a essas duas faces. Tal decisão é estratégica, já que libera as melhores visuais, incidência solar e espaço livre do local para disfrute dos usuários (sul e leste).
Concentrar o programa de necessidades em um único volume, sob uma única cobertura é a melhor decisão, já que evita grande movimentação de terra, facilita o controle térmico e de ventilação, além de liberar o restante do terreno para lazer. Pelos mesmos motivos, nos parece incoerente considerar um edifício com mais de um pavimento em um terreno de tais proporções. Optamos por considerar a Casa da Sustentabilidade como um edifício térreo, evitando complicantes como escadas e elevadores, que poderiam limitar o acesso total do prédio. Um edifício térreo, implantado em terreno planificado, garante a acessibilidade planejada.
Para que a pequena planície possa usufruir de sua relação com os taludes próximos, pequenas intervenções no terreno foram feitas, criando patamares gramados que possibilitam diferentes usos, possibilidades de trajetos e lazer.
O perímetro do projeto desenvolvido, quase um quadrado, permite abrigar o programa de necessidades sob uma grande cobertura.

Estrutura

A primeira lição do “edifício professor”, deve ser a mais básica de toda arquitetura: proteger das intempéries. Nesse sentido, o papel da cobertura na Casa da Sustentabilidade ganha destaque, já que não apenas deve garantir abrigo, mas se mostrar de maneira a ensinar como lida com as intempéries. Ao invés de ocultar a cobertura, evidencia-la, ao invés de canalizar a água pluvial, através de coletores, mostrar seu caminho, sua coleta e sua passagem até o solo, através de gárgulas. O sistema de coleta em duas águas invertidas no telhado é a melhor solução, uma vez que possibilita concentrar a água pluvial em uma única grande calha que se projeta para fora do edifício. A água pluvial é colhida na fachada norte e armazenada em tanque para reuso para regar o jardim do edifício. A gárgula da empena sul despeja a água da chuva em um pequeno jardim de pedriscos, que drena a água até o tanque de reuso. A ideia é que, principalmente em dias de chuva, o edifício apresente funcionalidade, e que seus visitantes possam observar como o tema da sustentabilidade é tratado, sem ocultar sistemas que geralmente ficam escondidos em edifícios.
Painéis solares estão previstos na cobertura voltados para a face norte de maior incidência solar.
A estrutura que suporta a cobertura, foi pensada em módulos, de maneira a minimizar a quantidade de pontos de apoio e possibilitar grande liberdade de uso. A ideia é que a estrutura acomode diversos usos no espaço de vida da construção. Um edifício público deve ser capaz de comportar mudanças de uso e funcionalidade. A estrutura metálica foi escolhida devido às suas vantagens, tanto de ordem financeira como de ordem sustentável: a estrutura metálica é composta por vigas e pilares fabricados, transportados e montados in loco, o que elimina do processo de construção gasto com carpintaria e serralheria típicos da estrutura de concreto. Além disso, do ponto de vista da eficiência energética, não faz sentido utilizar pilares e vigas de concreto, uma vez que a energia gasta em sua fabricação jamais é reconvertida, além de tratar-se de material cujo reaproveitamento em uma possível demolição é impossível. A estrutura metálica suporta maiores vãos com dimensões mais delgadas, e pode ser reaproveitada em outras construções após desmontagem.
A concentração da estrutura modulada sob uma única cobertura é a chave do projeto: enquanto as vigas metálicas horizontais possibilitam maleabilidade de uso, podendo servir para apoio de lajes (garantido o fechamento de áreas como sanitários, por exemplo), ou como espaço de exposição (estrutura para pendurar painéis informativos), a cobertura de duas águas invertidas garante a proteção do edifício das intempéries.

Fechamentos e aberturas

A situação de sobreposição da estrutura modulada metálica e da cobertura em duas águas, gera uma espacialidade interna em que o pé-direito cresce em altura à medida que se afasta da calha central, a leste e oeste. A altura do piso até a viga metálica horizontal é de 3,50m, e a variação de pé-direito se da no intervalo entre as vigas metálicas e a cobertura. Essa medida foi escolhida por proporcionar maior abertura para o entorno, e assegurar a ventilação natural no edifício. Quanto mais alto o teto, melhor a sensação térmica e a fluidez dos ventos.
A variação de altura da cobertura pode ser acompanhada externamente pelo desenho do fechamento de brises de bambu, cujo objetivo é proteger da incidência solar sem vedar totalmente as empenas, de maneira a garantir a ventilação cruzada (o ar quente sobe e encontra espaço para sair). Nas áreas cobertas internas, o brise de bambus é vedado por painéis de vidro, que podem ser abertos em determinados pontos.
Enquanto alguns ambientes possuem fechamento de painéis isolantes como alvenaria (em sanitários por exemplo), optamos por vedar o edifício com alvenarias de taipa de pilão: buscando utilizar um material que não dependesse de argamassa ou aquecimento em forno, e que possa voltar à natureza quando for necessária sua demolição. Apesar de ser uma técnica construtiva antiga, a taipa de pilão pode hoje ser executada de maneira atualizada, por empresas que utilizam a terra do próprio local e fôrmas metálicas reutilizáveis, evitando desperdícios e gasto de material. A alvenaria de taipa, por seu papel estrutural, pode ser aproveitada também na construção de arrimos, necessários para a regularização do terreno e criação de patamares que propusemos para aumentar os espaços de permanência e socialização. Devido ao uso de fôrmas, a taipa fica com aspecto similar ao do concreto armado aparente, e com tonalidade que depende do tipo de terra utilizado na sua composição. Com espessura mínima de 30cm, a alvenaria é excelente para o isolamento térmico e acústico dos ambientes.
Visando facilitar a execução, todos os caixilhos de janelas tem esquema de ventilação e iluminação bipartida: os vidros são fixos, e a ventilação se dá através de venezianas de madeira, que podem ser abertas ou fechadas.
Chapas metálicas perfuradas, fazendo papel de elemento vazado, protegem algumas empenas da insolação, direta, ao mesmo tempo que configuram espaços de transição para o exterior.

Permeabilidade, visadas e flexibilidade

Além dos trajetos do edifício serem importantes para garantir fácil acesso e integração com o entorno, a permeabilidade do projeto se faz presente para dar continuidade visual, como o edital sugere. Longe de ser uma obstrução na paisagem, a Casa da Sustentabilidade deve criar espaços de exposição que convidem os visitantes a adentrar. Nesse sentido, a varanda é um espaço particularmente importante, já que além de abrigar contra intempéries, também expõe o tema da sustentabilidade, sendo o segundo contato do usuário com a arquitetura de maneira mais próxima. De maneira indireta, o caminho de acesso público que leva ao edifício, vindo da via de pedestres a oeste, é o primeiro contato do visitante com o edifício, marcado ao longe pela cobertura de duas águas e os brises de bambu, constituindo elemento marcante na paisagem, sem competir, entretanto, em altura com a copa de algumas árvores de grande porte próximas. Enquanto o sol da tarde é minimizado na empena oeste pelas alvenarias de taipa de pilão, espelho d’água e brises (e também pela proximidade com uma área bastante arborizada), a empena leste é banhada pelo sol da manhã, sendo os ambientes internos protegidos pelos brises e elementos vazados, sem que isso impeça quem caminha pela varanda e pelo foyer da visão do parque, que se estende para além dos taludes, trilho do bondinho e da Lagoa do Taquaral. A empena sul, sem insolação direta, gera zonas de sombreamento durante todo o dia, estendendo a proteção do sol para fora do perímetro da cobertura.
O uso de vigas metálicas a uma altura de 3,50m, pretende colaborar para a montagem de exposições, servindo como espaço para a instalação de painéis, estandes ou travamento de técnicas construtivas alternativas. A natureza desmontável da estrutura e das alvenarias de taipa, garante a flexibilidade do espaço, e a possibilidade de renovação e experimentação dos sistemas construtivos no edifício.

Por sua materialidade e detalhes construtivos, o próprio projeto representa conceitos ideais de sustentabilidade.

Ficha Técnica

Concurso
Campinas - SP

PROJETO
2016
ETAPA
Estudo Preliminar

ARQUITETURA
Fernando Gobbo e Larissa França

Colaborador: Gabriela Secaf e Carolina Boccato